Mecanismos de defesa do EU em tempos de crise



Uns fogem do amor e outros procuram com sofreguidão, mas no fim o que fica, em todos, é a mesma coisa, uma insuportável sensação de vazio.”

(Rubem Alves)

Em tempos de pandemia, crise econômica e instabilidade política, nosso aparelho psíquico é bombardeado por informações (verídicas e/ou fake news) que permeiam a palavra e consequentemente emoções, que se convertem em hiperestímulos no sistema perceptivo, desdobrando se em desprazer e angústia.

Essa sensação de desprazer, segundo Freud (1920) contraria a lei máxima do aparelho mental (princípio de nirvana), que em linhas gerais, exige a constância de catexia libidinal, indispensável ao equilíbrio de nosso aparelho psíquico. As sensações ,convergidas em energia ativam nossos traços mnêmicos (memórias) que emergem ao pré consciente como pulsões. Entretanto, essa instância os tenta reprimir (recalcar) através dos mecanismos de defesa, que atuam como uma espécie de ”instrumento para a execução dos desejos do Super Ego.” que aponta para o consciente, para o externo, logo a maneira que nos apresentamos socialmente e interagimos com o meio, sendo regido em suma, a priori pela legislação de nossos pais (ou figura simbólica correspondente) e depois pela opressão social (recompensa x punição).

Momentos de crise provocam a perda do equilíbrio da psique. E muitas das vezes, esses mecanismos de defesa não dão conta da angústia e da ansiedade que ganha força trazendo fantasias adormecidas ligadas ao desamparo e abandono. As representações de ordem simbólica e seus significantes e a forma que lidamos com essas representações, podem causar grandes impactos em nossa saúde mental: lidar com o perigo iminente de contágio, o luto, o risco da perda do objeto, do desemprego, da imprevisibilidade, da finitude... enfim, questões complexas que possuem diferentes “pesos e medidas” individuais.

Questões essas que  devem ser observadas, discutidas e pensadas pela psicanálise de maneira profunda, ampla e sob diferentes perspectivas, pois influenciam diretamente nos fenômenos psicopatológicos individuais e coletivos, bem como na clínica contemporânea. Tudo esta constante evolução e construção.

“O que é que o ego teme, quer de um perigo externo, quer de um libidinal, não pode ser especificado: sabemos ser algo da natureza de uma destruição ou de uma extinção, mas não está determinado pela análise.”

 (Freud)

Dentre as diversas defesas, destacarei algumas bem presentes na contemporaneidade, o mecanismo de proteção egóico em si é necessário à nossa sobrevivência e bem estar psíquico, entretanto, quando existe um desequilíbrio na energia investida para manter o funcionamento desse mecanismo ou há um enfraquecimento dessa estrutura ou mesmo  se ela for utilizada de forma indevida ou excessiva, pode vir a funcionar de um modo desestruturante, ou seja, pode tornar se patológica e necessita uma intervenção terapêutica.

Na psicanálise o limite entre o saudável e o patológico é o nível de angústia e dor suportada pelo sujeito. É óbvio que quanto mais imaturo e menos desenvolvido estiver o ego (Eu), mais primitivas e carregadas de “magia”, serão essas defesas.

Tendemos a sofrer não só com a situação presente, mas com dúvidas relativas a um futuro desconhecido.

Alguns comportamentos podem se acentuar durante o período de distanciamento social, cuja alteração na dinâmica das relações objetais e a ausência de interação com o outro, podem aflorar a sensação de solidão, desamparo e isolamento, abrindo precedentes para o desenvolvimento de adoecimento anímico, logo sofrimento mental. E com elas, doenças psicossomáticas como insônia, ansiedade, depressão e o medo que nos incomodam diariamente. Segundo MacDougall “ a somatização como resposta à dor mental é uma das respostas psíquicas mais comuns que o ser humano é capaz.”

A negação (denegação) também cunhada como Werleungung por Freud se caracteriza pelo sentimento de forte de rejeição à vivências, experiências e ideias que produzam ansiedade, são alicerçadas numa espécie de “onipotência mágica” onde o sujeito nega o conhecimento de uma verdade que, bem no fundo, ele sabe que existe. Consiste em um mecanismo pelo qual a priori fora simplesmente recalcado (reprimido) e ao retornar ao consciente é rejeitado pelo Ego.

Num nível mais latente, retorna sob forma de renegação (ou “desestima”) e é percebido em estados narcísicos parciais (como nas perversões) ou Forclusão (ou “repúdio”) muito presente em pacientes psicóticos.

A dissociação é um processo de descontinuidade da identidade, memória, consciência ou da percepção como um forma ilusória de obtenção de domínio diante do desamparo ou perda de controle, uma espécie de “afastamento” da realidade e em casos extremos, podendo haver uma alteração da memória de experiências em detrimento dessa “ruptura”.

A racionalização perpassa a premissa de justificar as angústias, desafetos, lembranças e controvérsias através de um discurso lógico e racional, numa narrativa de “superioridade” intelectual e  fala puramente técnica e de afastamento dos afetos, a fim de afastar certos eventos que nos causam sofrimento, fragilidade e incertezas, disfarçando os verdadeiros motivos que nos  angustiam.

A análise pode trazer excelentes resultados no processo de autoconhecimento e ressignificação dos afetos e angústias do ser, não somente em questões ligadas ao isolamento e a maneira que lidamos endogenamente em relação à pandemia do novo cornavírus, mas em questões da clínica contemporânea como as da ordem da sexualidade, os novos caminhos do desejo e afeto, as novas instituições de laços sociais, os fenômenos coletivos, a construção da subjetividade, entre outros.

A psicanálise deve estar aberta à sociedade, à discussão, ser acessível e se colocar como dispositivo político suprapartidário a fim de entendermos e acolhermos as demandas sociais e seus desdobramentos que certamente serão inúmeros pós crise.

“Em síntese, a tarefa maior do terapeuta é auxiliar seu paciente a encontrar uma liberdade interna e uma autenticidade naqueles frequentes casos em que fica evidente que se trata de um sujeito que está sujeitado a uma ordem de mandamentos internos e desconhecidos sob a forma de ameaças, ordens, proibições, expectativas e crenças ilusórias.”

(David E. Zimerman)

Bibliografia:

Freud, Anna. O ego e os mecanismos de defesa / Freud, Anna ; tradução Francisco Settíneri. — Porto Alegre : Artmed, 2006.

FREUD, S. Além do princípio de prazer (1920). In: ______. Além do princípio do prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos (1920-1922). Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1977.

McDougall, J. (1994). Corpo e linguagem: da linguagem do soma às palavras da mente. Trad. N . J. P. Franch. Revista Brasileira de Psicanálise, 28 (1), 75-98.

Zimerman, David E. Fundamentos psicanalíticos [recurso eletrônico] : teoria, técnica e clínica: uma abordagem didática / David E. Zimerman. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre : Artmed, 2007.

 

 

  

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